terça-feira, 20 de maio de 2008

LOUVAÇÃO DA QUIETUDE por Jorge Luis Borges


Escrituras de luz investem na sombra, mais prodigiosasque meteoros.A alta cidade incognoscível avança sobre o campo.Certo de minha vida e de minha morte, fito os ambicioso se tento entendê-los.Seu dia é ávido como o laço no ar.Sua noite é trégua da ira no ferro, prestes a atacar.Falam de humanidade.Minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma penúria.Falam de pátria.Minha pátria é um lamento de guitarra, alguns retratos e uma velha espada,a desvelada prece dos salgueiros nos fins de tarde.O tempo está vivendo-me.Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tropel de sua exaltada cobiça.Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores da manhã.Meu nome é alguém e qualquer um.Passo devagar, como quem vem de tão longe que não espera chegar.

Jorge Luis BorgesIn: Primeira Poesia

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